A juventude está a apostar o seu futuro?

O que as pesquisas sobre apostas desportivas podem estar a revelar sobre os jovens em Angola e Moçambique

vício em apostas desportivas

Há números que não devem ser ignorados.

Recentemente, um levantamento realizado através do Google Trends sobre os termos mais pesquisados por jovens em Angola e Moçambique chamou a atenção para a forte presença de pesquisas relacionadas com apostas desportivas.

Entre os termos que apareceram no topo do levantamento estavam nomes de plataformas de apostas e pesquisas relacionadas com apostas desportivas.

É importante fazer uma ressalva: estar entre os termos mais pesquisados não significa que todos os jovens estejam viciados em apostas, nem permite concluir que a juventude de Angola ou Moçambique tenha um determinado carácter.

Mas existe uma pergunta que precisamos de fazer:

Por que razão a possibilidade de ganhar dinheiro através de apostas está a ocupar tanto espaço na atenção dos nossos jovens?

E, mais importante ainda:

Estamos a preparar uma geração para construir riqueza ou uma geração à procura de dinheiro rápido?

O sonho do dinheiro rápido

Vivemos numa realidade em que muitos jovens enfrentam dificuldades para encontrar emprego, iniciar um negócio ou conquistar independência financeira.

Neste contexto, a promessa de transformar uma pequena quantia de dinheiro numa quantia muito maior pode parecer extremamente atraente.

A lógica parece simples:

“Se eu acertar, ganho.”

O problema é que essa simplicidade esconde uma realidade muito mais complexa.

As apostas são baseadas em resultados incertos. Não constituem um salário, uma profissão ou uma estratégia segura de construção de património.

A Organização Mundial da Saúde reconhece o jogo como um comportamento que pode tornar-se problemático e, em alguns casos, evoluir para uma perturbação do jogo. Entre os sinais estão a perda de controlo, colocar o jogo acima de outras áreas da vida e continuar mesmo depois de surgirem consequências negativas.

O verdadeiro perigo não começa quando a pessoa perde tudo

Muitas vezes imaginamos que o problema começa quando alguém perde uma grande quantidade de dinheiro.

Nem sempre.

Pode começar de forma aparentemente inocente.

Primeiro, uma pequena aposta.

Depois, outra.

Depois vem uma vitória.

A vitória cria a sensação de que é possível repetir o resultado.

Quando surge uma perda, aparece outro pensamento:

“Preciso recuperar o que perdi.”

E é precisamente aí que o problema pode começar a crescer.

A pessoa deixa de apostar apenas pela diversão e começa a apostar para recuperar perdas.

Depois começa a utilizar dinheiro que deveria servir para outras necessidades.

E, pouco a pouco, a aposta deixa de ser uma actividade ocasional e passa a ocupar espaço dentro da vida financeira e emocional da pessoa.

O dinheiro que vai para a aposta também tinha um destino

Esta é uma das perguntas que precisamos fazer aos jovens:

Se esse dinheiro não fosse utilizado numa aposta, onde poderia estar hoje?

Poderia estar a financiar um curso.

Poderia comprar ferramentas para começar um pequeno negócio.

Poderia pagar transporte durante algumas semanas.

Poderia ajudar nas despesas de casa.

Poderia ser colocado de lado para criar uma reserva.

Poderia ser utilizado para aprender uma profissão.

O problema não é apenas o dinheiro perdido.

É também a oportunidade que aquele dinheiro representava.

A OMS alerta que os danos relacionados com o jogo podem atingir as finanças familiares, alimentação, habitação, educação, relações e saúde mental.

Estamos a trocar construção por tentativa?

Existe uma diferença enorme entre construir riqueza e tentar ganhar dinheiro rapidamente.

Construir riqueza normalmente exige:

  • aprender;
  • trabalhar;
  • desenvolver competências;
  • poupar;
  • investir;
  • criar negócios;
  • resolver problemas;
  • construir relações profissionais;
  • ter disciplina;
  • ter paciência.

A aposta oferece uma narrativa completamente diferente:

“Talvez hoje seja o meu dia.”

E esse pensamento pode ser perigoso quando começa a substituir o planeamento.

Um jovem que passa meses a procurar uma oportunidade profissional, estudar uma área, desenvolver uma competência ou construir um negócio está a construir um activo para o futuro.

Um jovem que passa o mesmo período concentrado apenas na possibilidade de ganhar dinheiro rapidamente está a correr o risco de colocar o futuro nas mãos do acaso.

A questão não é apenas individual. É social.

Precisamos de parar de olhar para este fenómeno apenas como um problema de “jovens irresponsáveis”.

Existe uma questão económica e social por trás disso.

Quando uma geração cresce num ambiente de desemprego, dificuldade financeira, pressão social e consumo constante de imagens de pessoas aparentemente ricas, a promessa de dinheiro rápido torna-se ainda mais sedutora.

Por isso, combater os riscos do jogo não significa apenas dizer:

“Não apostes.”

Também precisamos de perguntar:

“Que alternativas estamos a oferecer aos nossos jovens?”

Onde estão as oportunidades de formação?

Onde estão os programas de empreendedorismo?

Onde está a educação financeira?

Onde estão os espaços para desenvolver competências digitais e profissionais?

Onde está a cultura de poupança, investimento e criação de negócios?

O perigo de normalizar as apostas

Outro ponto merece atenção: a normalização.

Quando as apostas passam a aparecer constantemente associadas ao desporto, entretenimento e redes sociais, podem começar a parecer uma parte normal da vida.

A Organização Mundial da Saúde alerta precisamente para o processo de normalização do jogo através da comercialização, digitalização, publicidade e associação com actividades desportivas.

E existe uma diferença entre conhecer a existência das apostas e crescer acreditando que apostar é uma das principais formas de melhorar de vida.

A segunda situação merece preocupação.

O futuro de Angola não pode depender da sorte

Esta talvez seja a parte mais importante desta discussão.

Angola precisa de jovens que saibam operar máquinas, programar, construir, soldar, administrar empresas, trabalhar com tecnologia, produzir alimentos, criar negócios, desenvolver soluções e prestar serviços.

Precisa de jovens que transformem conhecimento em valor.

Precisa de uma geração que olhe para os problemas do país e pense:

“Como posso criar uma solução?”

E não apenas:

“Como posso ganhar dinheiro rapidamente?”

Precisamos de substituir a cultura do dinheiro fácil pela cultura da competência, trabalho, criatividade e construção de património.

Não é uma guerra contra os jovens

Este artigo não pretende condenar ou humilhar quem aposta.

Nem todos os que apostam desenvolvem dependência. A própria OMS diferencia o comportamento de jogo em geral dos casos em que existe perda de controlo e prejuízo significativo.

A questão é outra:

Precisamos falar sobre o assunto antes que o problema fique maior.

Se um jovem começa a perceber que está a gastar dinheiro que precisava para outras coisas, a tentar recuperar perdas, a esconder quanto está a gastar ou a colocar as apostas acima dos estudos, trabalho, família e outras responsabilidades, isso merece atenção.

Pedir ajuda não é sinal de fraqueza.

É sinal de consciência.

E se começássemos a pesquisar mais sobre o nosso futuro?

Talvez esta seja a provocação que precisamos deixar.

Se amanhã o Google Trends mostrasse que as pesquisas mais populares entre os jovens angolanos são:

“Como aprender uma profissão?”

“Como abrir uma empresa?”

“Como investir?”

“Como aprender programação?”

“Como conseguir o primeiro emprego?”

“Como criar um negócio com pouco dinheiro?”

“Como melhorar a minha educação financeira?”

Isso também diria alguma coisa sobre as nossas prioridades.

Não necessariamente sobre o carácter de toda uma geração.

Mas certamente sobre aquilo que está a ocupar a nossa atenção.

E aquilo que ocupa a nossa atenção repetidamente acaba por influenciar aquilo que fazemos.

O futuro não pode ser uma aposta

A juventude é um dos maiores activos de qualquer país.

Por isso, precisamos ensinar os nossos jovens a construir, e não apenas a tentar ganhar.

A construir competências.

A construir negócios.

A construir carreiras.

A construir famílias financeiramente saudáveis.

A construir património.

A construir soluções.

Porque uma geração não muda um país apenas quando encontra uma forma de ganhar dinheiro.

Muda um país quando aprende a criar valor.

E talvez a pergunta mais importante para cada jovem seja esta:

“Estou a construir o meu futuro ou estou a tentar ganhar o meu futuro?”

A resposta pode determinar muito mais do que o saldo da próxima aposta.

Pode determinar o caminho da próxima geração.

edvaldos60

Editora e Bloger

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